O que esta área da avaliação responde
Quem busca um “teste de personalidade” em psicologia geralmente quer responder a uma de quatro perguntas. Quais são as tendências estáveis de comportamento, emoção e motivação desta pessoa? é a pergunta dos inventários de traços normais. Há traços desadaptativos de personalidade que ajudam a entender o sofrimento ou o prejuízo? é a pergunta dos modelos dimensionais clínicos. Qual é o repertório de habilidades sociais e onde estão as dificuldades? é uma pergunta de habilidades sociais. Como está o bem-estar no trabalho ou nos estudos? é a pergunta das medidas de burnout e sentido do trabalho.
Essas perguntas usam construtos diferentes. A BFP descreve personalidade pelo modelo dos Cinco Grandes Fatores; o IFP-II parte da teoria das necessidades de Henry Murray; o PID-5 descreve traços desadaptativos do Modelo Alternativo de Transtornos da Personalidade do DSM-5. Dimensões com nomes parecidos em instrumentos diferentes não são intercambiáveis, e nenhum desses inventários, isoladamente, diagnostica transtorno da personalidade.
Personalidade descreve tendências, não sentenças. Um percentil alto em Neuroticismo indica maior propensão relatada a experimentar emoções negativas em comparação com a amostra normativa; não diz se a pessoa está deprimida agora, nem prevê com segurança o comportamento em uma situação específica. Sintomas atuais pedem escalas próprias, como o PHQ-9 ou o GAD-7.
Como escolher instrumentos: triagem, descrição e aprofundamento
A lógica de rastreio, gravidade e aprofundamento também vale aqui, adaptada. Triagem: o PID-5-BF tem 25 itens e cinco domínios de 0 a 15, útil para decidir se vale aprofundar traços desadaptativos. Descrição normativa: BFP e IFP-II produzem percentis por norma brasileira e situam a pessoa em relação a uma população. Aprofundamento: o PID-5 completo, com 220 itens e 25 facetas, distingue componentes que a forma breve não separa, como impulsividade e distraibilidade dentro da Desinibição.
Para habilidades sociais, a escolha é guiada pela idade: IHSA-Del-Prette para 12 a 17 anos e IHS-2 para adultos de 18 a 59 anos. Para bem-estar ocupacional e acadêmico, pelo público: estudantes, trabalhadores universitários ou profissionais de saúde têm versões próprias do Copenhagen Burnout Inventory. A tabela abaixo resume as combinações mais frequentes.
| Pergunta clínica | Instrumentos | Formato | Faixa etária |
|---|---|---|---|
| Quais são os traços de personalidade no modelo dos Cinco Grandes Fatores? | BFP | Autorrelato de 126 itens, 5 fatores e 17 facetas, percentis brasileiros | Adolescentes e adultos, conforme a norma do manual |
| Quais necessidades psicológicas orientam o comportamento? | IFP-II | Autorrelato de 100 itens, 13 necessidades e 3 fatores | 14 a 86 anos |
| Há traços desadaptativos de personalidade? | PID-5-BF, PID-5 | Autorrelato; triagem (25 itens) ou forma completa (220 itens) | Adultos, 18 anos ou mais |
| Como se expressam a dinâmica afetiva e aspectos da personalidade em tarefa não verbal ou gráfica? | Pfister, HTP, Palográfico | Técnicas projetivas e expressivas, uso privativo do psicólogo | Adultos (Pfister adulto); 6 a 90 anos (HTP); 18 a 60 anos (Palográfico) |
| Qual o repertório de habilidades sociais? | IHSA-Del-Prette, IHS-2 | Autorrelato de 38 situações | 12 a 17 anos (IHSA); 18 a 59 anos (IHS-2) |
| Há envolvimento em bullying escolar? | EAB-E | Autorrelato com escalas de vítima e autor | 6 a 20 anos |
| Como são as práticas educativas parentais? | IEP | Autorrelato do responsável, 7 práticas e índice | Pais ou responsáveis |
| Como está a empatia ou a inteligência emocional relatada? | EMRI, SSEIT | Autorrelato dimensional, sem ponto de corte | 14 a 65 anos (EMRI); conforme a versão (SSEIT) |
| Há exaustão no trabalho ou nos estudos? | CBI-S, CBI-Br, CBI saúde | Autorrelato com médias de 0 a 100 por domínio | Universitários; trabalhadores universitários; profissionais de saúde |
| Qual sentido a pessoa atribui ao trabalho? | WAMI | Autorrelato de 10 itens, total de 10 a 50 | Adultos trabalhadores |
Modelos de personalidade: traços normais e traços desadaptativos
A BFP, construída no Brasil por Nunes, Hutz e Nunes (2010), avalia Neuroticismo, Extroversão, Socialização, Realização e Abertura em 126 frases respondidas de 1 a 7, com percentis por normas gerais e por sexo. É indicada para descrever personalidade em população geral, em contextos clínicos, educacionais e organizacionais, e não diagnostica psicopatologia.
O IFP-II, de Leme, Rabelo e Alves (2013), atualiza o IFP de Pasquali e colaboradores e traduz em 13 escalas as necessidades psicológicas descritas por Murray, como afago, ordem, dominância e persistência, organizadas em três fatores de segunda ordem. É útil quando a pergunta envolve motivação e estilo de comportamento. Nem a BFP nem o IFP-II sustentam sozinhos um parecer de apto ou inapto.
O PID-5, publicado por Krueger e colaboradores (2012) e disponibilizado pela American Psychiatric Association, operacionaliza o Critério B do Modelo Alternativo do DSM-5: cinco domínios de traços desadaptativos (Afetividade negativa, Distanciamento, Antagonismo, Desinibição e Psicoticismo) e 25 facetas, lidos como médias de 0 a 3, sem ponto de corte. O instrumento não mede o Critério A, o funcionamento da personalidade, que depende de entrevista. A versão brasileira foi adaptada por Barchi-Ferreira e colaboradores (2019).
Técnicas projetivas e expressivas: HTP, Pfister e Palográfico
Técnicas projetivas e expressivas apresentam uma tarefa pouco estruturada, como desenhar, montar pirâmides coloridas ou traçar riscos, e analisam a forma como a pessoa a realiza. O HTP, criado por John N. Buck em 1948, pede três desenhos (casa, árvore e pessoa) seguidos de inquérito; o manual brasileiro de 2024 (Vetor) abrange de 6 a 90 anos e propõe análise qualitativa, sem escore total. As Pirâmides Coloridas de Pfister, normatizadas no Brasil por Villemor-Amaral na versão adulto, usam 45 quadrículos de 10 cores em 24 tonalidades. O Teste Palográfico, na versão de Alves e Esteves, é um teste expressivo com cinco tempos de um minuto, que gera produtividade, índice NOR e características gráficas.
O uso de testes psicológicos é privativo do psicólogo, conforme o artigo 13 da Lei nº 4.119/1962, e a Resolução CFP nº 31/2022 determina que aplicação, correção e interpretação sigam o manual técnico do instrumento. A situação no SATEPSI varia por edição: a edição de 2024 do HTP tem parecer favorável, enquanto edições anteriores e a versão para porte de arma constam como desfavoráveis; a versão antiga do Palográfico de Minicucci também é desfavorável. Confira o registro da edição exata antes de usar o instrumento em documento.
Por essas razões, este guia não descreve o significado de sinais gráficos, cores ou características do traçado. A divulgação pública de critérios interpretativos compromete a validade das técnicas, porque permite respostas ensaiadas, e incentiva leituras isoladas de um sinal, prática que os próprios manuais desaconselham. A interpretação exige formação específica, integração com entrevista e outras fontes e o manual vigente.
Técnicas projetivas também têm restrições de uso: limitação motora, tremor ou visão não corrigida distorcem grafismo e traçado; o Pfister não deve ser aplicado em quem não distingue cores ou sob iluminação inadequada; e nenhuma delas deve fundamentar sozinha decisões de seleção, perícia, trânsito ou guarda. Na plataforma, o profissional registra os dados apurados conforme o manual, e a interpretação permanece integralmente profissional.
Habilidades sociais, bullying e práticas parentais por faixa etária
Habilidades sociais são comportamentos aprendidos que favorecem interações bem-sucedidas: expressar opinião, recusar pedidos, fazer e receber críticas, iniciar conversa, demonstrar empatia. Por serem treináveis, sua avaliação costuma anteceder e acompanhar intervenções. Os instrumentos de Almir e Zilda Del Prette são referência no Brasil.
Adolescentes (12 a 17 anos). O IHSA-Del-Prette tem 38 situações avaliadas em dois indicadores, frequência e dificuldade, cada um de 0 a 4, em seis fatores. A combinação é informativa: alta frequência com alta dificuldade sugere comportamento emitido com custo emocional. A EAB-E, de 6 a 20 anos, separa indicadores de vítima e de autor de bullying escolar e exige vínculo mínimo do estudante com a escola.
Adultos (18 a 59 anos). O IHS-2 avalia 38 situações do trabalho, da família e do cotidiano, com escore geral e cinco fatores convertidos em percentis por sexo e faixa etária; os estudos de validação relatam consistência interna elevada e boa estabilidade teste-reteste. A EMRI, versão brasileira do Interpersonal Reactivity Index, descreve empatia disposicional em quatro fatores, e o SSEIT descreve inteligência emocional autorrelatada. Para desempenho em cognição social, uma tarefa como o RMET responde a outra pergunta.
Família. O IEP, de Paula Gomide, avalia sete práticas educativas, duas positivas e cinco negativas, e calcula um índice de estilo parental. É útil quando a demanda envolve comportamento da criança no contexto familiar, mas não substitui entrevista familiar nem avaliação específica de negligência ou violência.
Bem-estar no trabalho e nos estudos: burnout e sentido do trabalho
A Organização Mundial da Saúde inclui o burnout na CID-11 como fenômeno ocupacional, e não como condição médica: uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi gerenciado com sucesso, caracterizada por exaustão, distanciamento mental ou negativismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional. A própria OMS restringe o termo ao contexto ocupacional; escalas para estudantes usam o conceito por analogia, como construto de pesquisa.
O Copenhagen Burnout Inventory tem versões brasileiras para públicos distintos. O CBI-S tem 23 itens e quatro domínios para universitários (pessoal, estudos, colegas e professores); o CBI-Br tem 18 itens e três domínios para trabalhadores universitários; a versão para profissionais de saúde tem 19 itens e inclui exaustão relacionada a pacientes. Todas produzem médias de 0 a 100, sem corte clínico universal, e não são intercambiáveis entre públicos.
O WAMI, de Steger, Dik e Duffy, descreve o sentido atribuído ao trabalho em 10 itens, com total de 10 a 50. Exaustão elevada com sentido preservado descreve situação diferente de exaustão com perda de sentido, e essa distinção orienta intervenções. Quando há sintomas depressivos ou ansiosos, medidas de burnout não os substituem: use instrumentos específicos e entrevista.
Limites do autorrelato e integração no laudo
Quase todos os instrumentos desta área são de autorrelato, e o resultado descreve como a pessoa se percebe e escolhe se apresentar. Desejabilidade social, contexto de avaliação (seleção, perícia, clínica), estado emocional atual e compreensão de leitura afetam as respostas. Em contextos com interesse em jogo, como seleção de pessoal, a tendência a respostas favoráveis aumenta; a interpretação deve considerar isso e buscar convergência com entrevista, observação e história.
No laudo, apresente cada medida com construto, norma e limites: “na BFP, o fator Realização situou-se no percentil 80, faixa alta em relação à norma geral” é mais preciso do que “a pessoa é muito responsável”. Integre achados convergentes e explique divergências, por exemplo, entre um IHS-2 com repertório elaborado e relatos de evitação social, que podem indicar ansiedade social e pedir instrumentos como a LSAS-SR. Versões para família ou instituição pedem linguagem descritiva e respeitosa, sem rótulos e sem detalhes de técnicas projetivas.
No PontoAzul, o profissional registra respostas ou escores apurados, a plataforma corrige inventários pelas normas disponíveis e identificadas, organiza perfis por instrumento sem aplicar uma classificação única a medidas diferentes e gera um laudo-base integrado com versões por público. Interpretação, integração e conclusão são revisadas pelo profissional antes da entrega.
Reavaliação e acompanhamento
Traços de personalidade são relativamente estáveis, e reaplicar BFP ou IFP-II em poucos meses raramente responde a uma pergunta clínica. Já habilidades sociais, burnout e traços desadaptativos em tratamento podem mudar e justificam reavaliação: antes e depois de um treinamento de habilidades sociais, ao longo de uma intervenção para exaustão ocupacional ou no acompanhamento psicoterápico com o PID-5-BF.
Para que a comparação seja válida, mantenha instrumento, versão, norma e condições de aplicação. Diferenças pequenas podem refletir apenas erro de medida; o Índice de Mudança Confiável de Jacobson e Truax (1991) ajuda a decidir se a diferença supera o esperado pela fidedignidade do instrumento. A análise de progressão da plataforma organiza os registros do mesmo instrumento ao longo do tempo para revisão profissional, como nos exemplos de análise de progressão.
Erros comuns
Os erros mais frequentes nesta área envolvem extrapolar o alcance dos instrumentos.
- Diagnosticar transtorno da personalidade com um inventário. BFP, IFP-II e PID-5 descrevem traços; o diagnóstico depende de entrevista e de critérios clínicos.
- Usar inventário de traços para medir sintomas atuais. Para humor e ansiedade, use escalas de sintomas.
- Interpretar sinais projetivos isoladamente ou fora do manual vigente da edição favorável.
- Usar edição desfavorável no SATEPSI, como versões antigas do HTP e do Palográfico, em documento psicológico.
- Aplicar o IHS-2 em adolescentes ou o IHSA em adultos. Cada um tem itens e normas próprios.
- Trocar versões do CBI entre públicos. Estudantes, trabalhadores universitários e profissionais de saúde têm estruturas diferentes.
- Tratar burnout como diagnóstico médico. Na CID-11, é fenômeno ocupacional.
- Fundamentar sozinho um parecer de apto ou inapto em um único instrumento.
- Comparar dimensões com nomes parecidos em instrumentos de modelos teóricos diferentes.
Fontes consultadas
- [1] CFP — Resolução nº 31/2022: diretrizes para a avaliação psicológica, uso privativo e SATEPSI
- [2] SATEPSI — Testes psicológicos favoráveis (CFP)
- [3] SATEPSI — Testes psicológicos desfavoráveis (CFP)
- [4] OMS — Burn-out an occupational phenomenon: International Classification of Diseases
- [5] APA — PID-5 Adult: folha de correção e instruções ao clínico
- [6] Rede de Habilidades Sociais (UFSCar) — IHS2-Del-Prette
Guia da equipe editorial PontoAzul. Atualizado em .