
Profissional responsável (exemplo)
Neuropsicóloga · CRP 00/000000 · registro fictício
contato@exemplo.com.br · (00) 0000-0000
Laudo Psicológico — WAIS-III
- Paciente
- Bruno (caso fictício)
- Nascimento / idade na avaliação
- 15/09/2001 (25 anos)
- Escolaridade
- Superior incompleto
- Solicitante
- O próprio avaliado
- Autora
- Psicóloga responsável (exemplo) · CRP 00/000000 · registro fictício
- Finalidade
- Avaliação do funcionamento intelectual para compreender a lentidão em provas e a dificuldade de concluir tarefas no prazo.
- Público-Alvo
- Profissional
Introdução
Este relatório apresenta a avaliação neuropsicológica de Bruno, 25 anos, cursando Engenharia, encaminhado por queixa de lentidão em provas e dificuldade para concluir tarefas no prazo. A pergunta clínica foi se existe diferença entre o raciocínio verbal e a velocidade de execução capaz de explicar essas dificuldades.
O instrumento utilizado foi a Escala de Inteligência Wechsler para Adultos — Terceira Edição (WAIS-III), corrigida pelas normas brasileiras revisadas de 2020 para a faixa de 20 a 29 anos. A escala descreve o desempenho em tarefas cognitivas e fornece QI Total, QIs Verbal e de Execução e índices fatoriais, mas não estabelece diagnóstico isoladamente: deficiência intelectual exige comprometimento adaptativo e início no período do desenvolvimento; altas habilidades não se definem apenas por QI; e o perfil de índices ou subtestes não identifica TDAH, TEA, transtorno de aprendizagem ou lesão.
Procedimento, Fonte e Qualidade do Protocolo
A aplicação ocorreu em 15 de setembro de 2026 e incluiu os 14 subtestes da escala, com os índices calculados pela revisão brasileira de 2020. Foram analisados QI Total, QI Verbal, QI de Execução, índices ICV, IOP, IMO e IVP, pontos ponderados dos subtestes, intervalos de confiança de 95%, valores críticos da Tabela B.1 e frequências da Tabela B.2. Não foram estimados escores ausentes.
Entre os dados contextuais, o histórico registrado informa superior incompleto, reprovações em disciplinas com provas cronometradas, traumatismo craniano leve aos 22 anos sem sequela documentada e uso de metilfenidato no passado. O protocolo não contém registro formal de condições ambientais, mas inclui duas observações: pausa solicitada após Aritmética com relato de cansaço e ritmo cuidadoso de trabalho, com verificação das respostas antes de concluir.
Os escores representam um único momento e podem variar com fadiga, sono, humor, motivação, condições sensoriais e motoras, escolaridade e contexto cultural. O IVP tem a menor fidedignidade entre os índices, com intervalo de confiança mais largo; portanto, sua leitura exige cautela adicional.
Resultados, Análise do Perfil e Leitura do Caso
O QI Total foi 102 (percentil 55, IC 95% 98–106, Médio). Esse resultado, porém, resume habilidades muito desiguais e deve ser lido junto com os índices. O QI Verbal foi 114 (percentil 82, IC 95% 109–119, Médio Superior); o QI de Execução foi 84 (percentil 14, IC 95% 79–91, Médio Inferior). A diferença QIV–QIE de 30 pontos é maior que o valor crítico de 7,78 e rara na amostra normativa (0,2%). Essa diferença é compósita: o QIV inclui compreensão verbal e memória operacional, e o QIE inclui organização perceptual e velocidade. No caso de Bruno, a vantagem do QIV parece concentrar-se no ICV, enquanto a desvantagem do QIE se concentra na velocidade, não no raciocínio perceptual.
Desigualdade entre domínios
O ICV foi 120 (percentil 91, IC 95% 114–125, Superior) e o IOP foi 90 (percentil 25, IC 95% 84–97, Médio), com diferença ICV–IOP de 30 pontos, maior que o valor crítico de 8,31 e rara (0,3%). O IMO foi 102 (percentil 55, IC 95% 94–110, Médio), sem discrepância expressiva em relação ao IOP. O IVP foi 77 (percentil 6, IC 95% 71–91, Limítrofe); essa classificação deve ser tratada como aproximada porque o intervalo alcança a faixa Médio. As diferenças ICV–IVP (43 pontos) e IMO–IVP (25 pontos) foram maiores que seus valores críticos e raras (0,3% e 3,7%). A diferença IOP–IVP (13 pontos) não alcançou o valor crítico de 13,78, sendo comum na amostra normativa (25,2%).
Contribuição dos subtestes
Os subtestes verbais de maior peso conceitual ficaram consistentemente acima da média normativa: Vocabulário (14), Informação (14), Semelhanças (13) e Compreensão (13). A memória operacional verbal ficou na média: Aritmética (10), Dígitos (11) e Sequência de Números e Letras (10). Nos subtestes de execução, Códigos (5) e Procurar Símbolos (6) situaram-se cerca de um desvio-padrão e meio abaixo da média, enquanto Completar Figuras (8), Cubos (8), Arranjo de Figuras (8) e Raciocínio Matricial (9) permaneceram em torno da média. O rebaixamento do QIE parece, portanto, impulsionado sobretudo pela codificação grafomotora sob tempo, e não por falha generalizada do raciocínio perceptual.
Esses dados não avaliam funcionamento adaptativo, desempenho acadêmico real ou condições emocionais e sensoriais; a leitura deve permanecer circunscrita ao desempenho nas tarefas da sessão.
Perfil cognitivo (WAIS-III)
QI Verbal, QI de Execução, quatro índices e QI Total sobre as faixas descritivas do manual, com intervalo de confiança de 95%.
- Extremamente Baixo
- Limítrofe
- Médio Inferior
- Médio
- Médio Superior
- Superior
- Muito Superior
| Escala | Ponto composto | Percentil | IC 95% | Classificação |
|---|---|---|---|---|
| Compreensão Verbal (ICV) | 120 | 91 | 114–125 | Superior |
| Organização Perceptual (IOP) | 90 | 25 | 84–97 | Médio |
| Memória Operacional (IMO) | 102 | 55 | 94–110 | Médio |
| Velocidade de Processamento (IVP) | 77 | 6 | 71–91 | Limítrofe |
| QI Verbal (QIV) | 114 | 82 | 109–119 | Médio Superior |
| QI de Execução (QIE) | 84 | 14 | 79–91 | Médio Inferior |
| QI Total (QIT) | 102 | 55 | 98–106 | Médio |
Pontos ponderados por subteste (WAIS-III)
Escala 1–19, média 10; faixa 7–13 destacada. Tracejados: subtestes que entram só nos QIs.
| Vocabulário | ICV | 14 |
|---|---|---|
| Semelhanças | ICV | 13 |
| Informação | ICV | 14 |
| Compreensão (suplementar) | ICV | 13 |
| Completar Figuras | IOP | 8 |
| Cubos | IOP | 8 |
| Raciocínio Matricial | IOP | 9 |
| Arranjo de Figuras (suplementar) | IOP | 8 |
| Aritmética | IMO | 10 |
| Dígitos | IMO | 11 |
| Sequência de Números e Letras | IMO | 10 |
| Códigos | IVP | 5 |
| Procurar Símbolos | IVP | 6 |
Análise Qualitativa do Perfil Cognitivo (WAIS-III)
Integração clínica
O desempenho geral não sustenta hipótese de deficiência intelectual: o QI Total está na média, e a compreensão verbal é um recurso consistente. Tampouco o QI Total caracteriza altas habilidades. O achado que melhor conversa com a queixa é a discrepância entre compreensão verbal superior e velocidade de processamento limítrofe. A memória operacional média, porém, indica que a lentidão não parece decorrer de dificuldade em reter e manipular informações sob demanda.
O histórico registrado traz duas informações que precisam ser qualificadas. O traumatismo craniano leve aos 22 anos não tem sequela documentada; o protocolo atual não permite atribuir a ele a baixa velocidade, nem excluir influência, mas a ausência de sequela registrada reduz essa hipótese. O uso passado de metilfenidato é relevante para a história, porém não há informação sobre indicação, dose, duração, resposta ou sintomas atuais; não é possível derivar disso um diagnóstico.
Hipóteses em discussão
Velocidade de processamento genuinamente rebaixada
- A favor: IVP no percentil 6, com dois subtestes igualmente baixos; contrastes ICV–IVP e IMO–IVP raros; queixa compatível.
- Contra: índice com fidedignidade menor e intervalo amplo; não há medida independente de velocidade; nenhuma condição neurológica atual documentada.
- Próximo passo: reavaliar com medidas específicas de velocidade e atenção em outro momento, com registro de esforço e observações.
Efeito de cansaço e estilo cauteloso na sessão
- A favor: pausa solicitada após Aritmética, relato de cansaço e ritmo cuidadoso com verificação das respostas, comportamentos que reduzem o ritmo em tarefas cronometradas.
- Contra: cansaço global tenderia a atingir também a memória operacional; os subtestes verbais permaneceram altos e os perceptivos não colapsaram.
- Próximo passo: aplicar tarefas de velocidade em diferentes posições e comparar com tarefas de memória; incluir observação comportamental sistemática.
Ansiedade de desempenho ou dificuldade atencional não tratada
- A favor: histórico de provas cronometradas, uso passado de metilfenidato e preocupação com desempenho podem reduzir a velocidade de execução.
- Contra: não há queixa atual de ansiedade, nem dados de instrumentos específicos; os escores do WAIS-III não identificam TDAH ou transtorno de ansiedade.
- Próximo passo: investigar sintomas atuais de ansiedade, humor e funções executivas no dia a dia com instrumentos apropriados e entrevista dirigida.
Fatores sensoriais ou motores finos
- A favor: Códigos e Procurar Símbolos dependem de acuidade visual, varredura e escrita rápida; o protocolo não registra triagem sensorial ou motora.
- Contra: Cubos e Raciocínio Matricial também exigem visão e permaneceram na média; não há indício específico de alteração visual.
- Próximo passo: triagem visual e motora fina somente se a baixa velocidade se mantiver após avaliação complementar.
O que permanece em aberto
Não há dados de funcionamento adaptativo, estratégias acadêmicas, desempenho real em provas, sono, humor atual ou uso atual de medicação. Por isso, a leitura mais defensável é de que existe uma fraqueza relativa de velocidade de processamento no WAIS-III, com possível impacto em provas cronometradas, mas sem estabelecer se essa fraqueza é estável, situacional ou associada a um transtorno.
Conclusão e Síntese do Perfil Cognitivo
Em resposta à pergunta clínica, sim: os resultados mostram diferença entre o raciocínio verbal e a velocidade de execução no WAIS-III, com ICV 120 e IVP 77, uma distância rara na amostra normativa. Essa diferença pode contribuir para a queixa de provas cronometradas, mas o IVP deve ser interpretado com cautela: seu intervalo de confiança é largo, o índice tem menor precisão, e o protocolo registra cansaço e estilo de trabalho cuidadoso.
O QI Total de 102 indica que o funcionamento intelectual geral está na média e não é compatível com deficiência intelectual. A memória operacional média e a organização perceptual média sugerem que a lentidão não se estende a todos os domínios. A principal incerteza é se a baixa velocidade representa característica estável ou foi acentuada pelas condições da sessão; a melhor próxima evidência seria uma avaliação independente de velocidade, atenção e impacto funcional.
Recomendações
Complementar a avaliação com medidas independentes de velocidade de processamento e atenção, como Trilhas, Stroop, d2-R ou BPA-2, em sessão planejada para variar a ordem das tarefas e registrar esforço e observações.
AltaO IVP de 77 é o achado mais rebaixado, mas tem precisão menor e foi obtido sob registro de cansaço e ritmo cauteloso; a reavaliação com outro instrumento é necessária para diferenciar desempenho estável de artefato.
Investigar sintomas atuais de desatenção, ansiedade e regulação executiva por meio de entrevista clínica e instrumentos apropriados, como ASRS, BDEFS, BAI e BDI-II.
AltaO histórico de metilfenidato no passado e a queixa de provas cronometradas levantam a hipótese de componente atencional ou emocional; os escores do WAIS-III não identificam TDAH, ansiedade ou transtorno de aprendizagem.
Documentar o impacto funcional e acadêmico atual, incluindo desempenho em atividades com tempo controlado, recursos já utilizados e expectativas do curso.
MédiaO QI Total de 102 está na média, e a diferença ICV–IVP só se torna clinicamente relevante se interferir no desempenho real; o histórico registra reprovações, mas faltam detalhes sobre o impacto atual.
Se a lentidão persistir em medidas complementares, recomendar à equipe educacional que analise possíveis adaptações de tempo ou formato de provas, sem fixar percentual neste relatório.
MédiaO IVP no percentil 6 e as reprovações em disciplinas cronometradas justificam analisar apoios acadêmicos; a dosagem de adaptações deve ser definida pela equipe educacional com base em impacto funcional e normativas institucionais.
Considerar triagem de acuidade visual e motricidade fina se a velocidade grafomotora continuar rebaixada após avaliação complementar.
BaixaCódigos e Procurar Símbolos dependem de varredura visual e escrita rápida, e o protocolo não traz registro de triagem sensorial ou motora.